Maldito tempo.

Que dele não se extrai nada, mas um amontoado de memórias.

Malditas memórias.

É assim: tá lá você feliz, de boa, vidinha pacata mesmo. Duas doses depois, e você parece a velhota daquela musiquinha da velha a fiar.

Estava a velha no seu lugar
Veio a mosca incomodar
A mosca na velha e a velha a fiar…

Muitas moscas. “Cada um tem sua bagagem. Vamos, carregue a sua!” Pesado… Quem liga? O jeito é ajeitar o pacote na chuva e seguir.

É lembrança. Não é vontade de voltar atrás, que a gente não é disso. Vontade de voltar atrás têm os redundantes, os que não sabem que tudo foi o que você é. Você É essa porrada de coisas tuas, esse aglomerado de vida-à-vera, companheiro. Voltar atrás é intolerável. Um desperdício de é. De ser. De foi.

Que jogo de palavras o quê. É na real. A felicidade existe no agora. Mas existiu no antes. E era felicidade diferente. E de que se sente falta. Porque está lá atrás. Mas só por isso. Hoje mesmo ela seria diferente, mesmo que fosse igual. Porque você é outro. “Eu sou outro.” Sou diferente do que já fui. Eu não sou meu passado. Sou o resultado dele. (E sofro com uma confusão de pessoas. Eu, você; de quem falamos?) Não sou poeta para poetizar os diabos dessa vida.

Fosse poeta, provavelmente o diria em soneto. Chamaria de Soneto ateu. E seria mais ou menos assim.

–que o tempo – tão ingrato, tão perverso –,
Descolhe com as mãos poema feito,
Extingue em toda rima o defeito,
Arranca o chão septicole do verso.

Desfaz em cinza e riso o canto imerso.
Do Mistério, esteta; tabula rasa.
Morre na dura-mater da toada,
Em canto que revela todo (in)verso.

Eis! Jaz! O tempo o acolhe e o reveste
Em nuas moradas cegas aos homens.
Seja lançado às fúrias do céu!

E grite a pulmões: “Alea jacta est!”
Realize em memória, em sombra, em templo
A eternidade do tempo, incréu.

Mas não sou poeta para poetizar os diabos dessa vida. Minha noite é mais branda. As lembranças deixam dores amargas e puras. Tá bom.

Eu sei, eu sei. É agora que me acusam de pronóstico e hipster; sai dessa. Esse negócio de rotular tá por fora. Panic é divertido e pronto.

Divertido e cheio de boas de referências. Não é toda música que se pode dar o desfrute de ter como título uma citação da mais corajosa e dolorida história de amor jamais contada: afinal, Lying’s the most fun a girl can have without taking her clothes off… é a resposta de Alice (Portman) ao pedido de Larry (Owen) em Closer – Perto demais: Alice, tell me something true! A isso, Alice, esmagadoramente, completa: But it’s better if you do. (Sim, outra música do Panic. Okay, eles realmente gostaram do filme.) À estética kitsch e teatral do clipe, junta-se uma letra perniciosa e sensual, movida a desejo e lascívia. I’ve got more wit, a better kiss, a hotter touch, a better fuck/than any boy you’ll ever meet, sweetie, you had me. Nada é mais adolescente que essa relação sádica com o ego. Nada é mais adolescente que o tesão de saber-se potente.

Cheio de ironia (So testosterone boys and hot-looking girls/Will you dance to this beat, and hold a lover close?), o clipe me faz lembrar todos os fracassos amorosos de que já participei. Que foram muitos, pra minha sorte. Vamos lá, fracasso é ótimo. Essa vida de vencer já não paga a conta. Quando os foras são muitos, invariavelmente, a gente acaba acertando. É uma vida de derrotas aquela de quem nunca fracassou. De quem nunca teve a sorte de afogar-se sete dias em lástimas pessoais profundíssimas antes de um previsível happy ending – em que você coloca sua foto no Facebook em legendas garrafais ESTOU FELIZ para que aquela desgraçada perceba que você está feliz sem ela. São os fracassos que antecedem os acertos. Que também hão de ser muitos.

A despeito de toda tragédia amorosa – amar é tragédia, inenarrável inescapável inevitável inenanável tragédia em muitos atos, teatro grego em composição cubista –, importa sempre que se diga isto, ao final: Tá tá. Foi bom. Mas acerto na próxima.

(Mesmo que não se entenda que amar é tentativa, nunca realização: o que importa é que o coração bata mais rápido, mais rápido.)

Moulin Rouge!

Breve estudo em vermelho sobre o maior filme de amor do início do século

Falar em Moulin Rouge! uma década após seu lançamento é, provavelmente, repetir o repetido. Um amigo chegou a me perguntar por que eu faria este texto. “Sei lá. Talvez pra tentar entender por que esse amor inconteste pela história.”

“Ah, mas… Filme velho, né?!” Aí eu respondi que o faria por três motivos: pelos que já conheço; pelos que chuto; e pelos de que não tenho ideia.


Os motivos que conheço

Sim, já o sabemos: é o filme de amor que inaugura o século XXI. Nem o duvidamos: Baz Luhrmann encontra suas fontes no romantismo moralista e burguês de dois séculos antes, com direito a tuberculose, prostitutas sifilíticas e reencenação kitsch da Belle Époque (a Europa caricatural não é nenhuma novidade à literatura; em Noite na Taverna, por exemplo, Álvares de Azevedo reinventa Roma em detalhes desconhecidos até mesmo pelos Césares!). Tudo igual – e tudo diferente ainda assim. A repaginada musical e a fotografia em frenesi – de cores berrantes, flerte com o burlesco, com o teatral, e ritmo de discoteca – encontraram eco nas frustrações amorosas da rapaziada pop-hipster-foreveralone baumaniana do estertor do milênio. Resultado: lucros exorbitantes às produtoras de lenço de papel.

(Divagação: Baumania seria um nome legal prum disco do Phoenix…)

Sim, já o sabemos: é a velha história de amor com trágico final antecipado. Já em suas primeiras linhas, Christian (o-que-não-sabe-cantar-Ewan McGregor) nos afirma: “a mulher que amo está – MORTA.” Só nos damos ao trabalho de assistir à pantomima – de novo e de novo etc – para tentar, enfim, salvar Satine (para todo o sempre amém Nicole Kidman) de seu fatídico e tuberculóstico unhappy ending. Ó, frustração.

Sim, já o entendemos: sou doente pelo filme e por sua tragicidade latina, à Manuel Puig, de cores de Almodóvar e Frida Kahlo. Mas a despeito do completo arrebatamento quase juvenil que ainda sinto ao revê-lo, percebi que o filme está muito além de sua trindade central. Vamos lá, permitam que eu tente falar um pouco da técnica narrativa cinematográfica aqui, sem ser muito chato: embora Christian seja o narrador de sua história – a máquina de escrever e a voz em off comprovam a primeira pessoa –, raramente percebemos a narrativa por seu ponto de vista. Estruturalmente: a câmera, quando não em absoluto voyeurismo nos takes em que os protagonistas estão sós, recria a tomada, frequentemente, pelo coadjuvante que compõe o quadro.

A quem interessar, uma explicação: o tal voyeurismo se dá pelo distanciamento que a câmera observa os personagens, em plano geral ou americano, e encarna nossa materialização na composição da cena, compartilhando a cama dos amantes (os close-ups servem apenas aos momentos de total privacidade ou segredo); por sua condição, tais planos criam extrema tensão sexual entre o público e o que é visto, e nos deixa sequiosos pela realização dos amantes, que, consequentemente, é a nossa própria (é a tal da espiadinha, Bial). Ao mesmo tempo, quando em tomadas com muitos personagens, é comum que a câmera se posicione sobre os ombros de um coadjuvante que compõe a ação, dando-nos a visão contextual desse personagem.

Então tá: eureka. O filme é sobre Christian; é por ele que sofremos; mas sua dor é a de toda uma geração de fim precocemente anunciado: “Adeus, boemia, jamais nos terás de regresso”, grita Luhrmann, em nostalgia. “Olhai, público, atentamente, estes personagens, pois que são tudo o que resta de nossa trágica saga ao século XIX.” Okay, Luhrmann, você venceu. Batatas fritas. Vamos entender esses caras.

Os motivos que chuto

Acho importante observar que Moulin Rouge! tem base epistêmica centrada na religião – cristã, a princípio, mas que, invariavelmente, flerta com o hinduísmo, numa tradição ecumenicamente hollywoodiana. Não é à toa, afinal, que o triângulo amoroso da história seja formado por:

  • Christian


Christian é o cristão (duh!), o que tem fé, o que acredita incondicionalmente (na Beleza, na Liberdade, na Verdade e no Amor – a bíblia reencenada). Ao mesmo tempo que espalha talentosamente sua nova doutrina pela palavra (teatral), Christian sofre e aceita sem questionar sua condição de miserabilidade. Juste judex ultionis, donum fac remissionis ante diem rationis.

 

  • Satine


Do francês, satinée é cetim, ou que tem textura acetinada. Certamente, trata-se de uma referência ao luxo e ao glamour da caríssima prostituta – a Madalena dessa nova comunhão. Mas não passa despercebida a paranomásia do nome com “santinni”, diminutivo de “sanctus”, do latim. Satine é o alvo de adoração do Cristão. É ela sua perdição, aquela que o expulsa do paraíso, ao mesmo tempo que é a que permite que ele se entregue, humanize-se, torne-se homem. Huic ergo parce, Deus: Pie Jesu Domine, dona eis requiem.
Amen.

 

  • O Duque


Eis um personagem que nunca precisou de nome. Se Satine e Christian são personas, o Duque é a materialização apócrifa do poder (apesar dos histrionismos de Richard Roxburgh). É o que deseja e o que controla; analogamente, é o deus do Velho Testamento: punitivo, vingativo; o que faz cumprir SUAS leis, não importa por que meios. Confutatis maledictis, flammis acribus addictis: voca me cum benedictis.

Parece óbvio que se trata, aqui, de uma religião fundada por princípios semelhantes aos da obra La Bohème, de Puccini (afinal, Mimi, personagem central da ópera, e Nini, prostituta do bordel, não parecem apenas semelhanças sonoras; tampouco as épocas retratadas: 1896, na composição clássica; 1900, no filme). Daí nasce a verdadeira adoração à película: Moulin Rouge! é muito mais que mais um filme sobre o amor: trata-se de um filme sobre a DEVOÇÃO à liberdade do ato amoroso; sobre a PERVERSIDADE que nos impinge a moral cristã; sobre a REDENÇÃO. É um filme que despreza nossos extemporâneos relacionamentos líquidos, e que, de quebra, traz a tragédia e a dor à perene condição de crescimento espiritual.

Os motivos de que não tenho ideia

Então é o seguinte: embora a história seja a construção da nova doutrina religiosa – em que o Amor supera o Poder –, nós, mortalíssimos em nossa condição espectadora, só saberemos entendê-la por olhos humanos. Nada mais justo, então, que o eixo da composição narrativa, como um básculo, gire em torno de si mesmo para encontrar respaldo nos personagens secundários. São eles nossos olhos apostolares pela via-sacra cristiânica. São eles os filhos da Revolução (You won’t fool the children of the revolution…) da nova era que se aproxima.

Com isso, o primeiro apóstolo a nos contar a história de Christian é, não à toa, um personagem REAL e um dos maiores frequentadores do verdadeiro Moulin Rouge: Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec Monfa.


Fundador da Art Nouveau e artista gráfico que sofria de distrofia (John Leguizamo está especialmente nanico para as filmagens) – morreu aos 36 anos de sífilis e alcoolismo (oh!) –, Toulouse evoca, o tempo inteiro, a verossimilhança da história. Nada é ficção. Ele é o background necessário ao establishment da narrativa.


É ele quem nos apresenta o Christian, com olhares encantados. Discípulo fidelíssimo, é o primeiro a acreditar em suas palavras e a permitir que ele as transmita ao mundo em maravilhamento absoluto. Exatamente por isso, Toulouse encarnará, até o final do episódio, a Cítara Mágica, sobre a qual voltaremos a falar mais tarde. Será dele, e de ninguém mais, a conjuração: I only speak the truth! É ele o apóstolo da Verdade.

A partir daí, vários são os focos narrativos que se misturam. Cada apóstolo colore uma faceta da história. É de se observar, então, o que cada um nos revela. E não é pouco.


Harold Zidler (Jim Broadbent, roubando a cena) é a força-motora do filme. Ao lado de Marie (Kerry Walker), representa o Zeitgeist (ele, pela resignação; ela, pela piedade): resistem (Magoe Christian; magoe-o para salvá-lo. Não há outro meio.); sentem-se menores diante do poder divino (Somos criaturas do submundo. Não podemos nos dar ao luxo de amar.). Mas, por fim, dobram-se: o novo é inevitável; the show must go on.

Nessa perspectiva, outro que se destaca, a despeito de sua pequena participação na narrativa, é Le Chocolat (Deobia Oparei).


UMA frase ele diz ao longo da película: Eu entendo. Sim, é ele quem entende. Principalmente, é ele quem desempenha o papel do guardião, do protetor; do MILAGRE de Christian. Muito mais que isso (rufem os tambores!): Chocolat é Satine. Ou, ao menos, sua face masculina.

Sempre que Satine está em perigo, Chocolat surge, instantaneamente, out of the blue, para salvá-la. Quando ela cai de seu balanço, em sua primeira cena; ou quando ameaçada pelo Duque, na temerosa cena da Torre (em que ela NEGA a velha doutrina pela nova, e se põe em perigo diante da fúria de deus), é ele quem se manifesta. Surge do nada. E simplesmente desaparece em seguida.

O que poderia ser um fraco recurso de roteiro, é, na verdade, um importante elemento de composição da personalidade de Satine. Pode parecer forçação de barra, mas vamos a um exercício de observação: ao fim do filme, na apresentação da peça, nota-se, pelo tom azul na pele, que Chocolat encarna Kali.


No panteão hindu, Kali é a “negra” (a-há!), a ceifadora de vidas, mulher de Shiva e uma de suas faces. Na prática, Kali é a força feminina, venerada por seus devotos como a Mãe. Todos que a adoram esperam uma morte sem dor ou aflição.

Chocolat é, enfim, a face dura de Satine.

A prostituta Nini é o judas da saga religiosa. É ela que denuncia os amantes por muito menos que trinta moedas. Não por maldade, mas por inveja do que realizam e pela necessidade de manutenção do velho sistema. (Diz ela ao Duque: Esse final é meio tolo. Por que a cortesã ficaria com o escritor pobre? Whoops! Quero dizer, com o tocador de cítara.)


Ainda assim, como Judas, também ela se arrepende. Em cena-chave do filme, ela traça os caminhos de Satine por si própria, no Tango de Roxanne. Ali, sofre. E, pela dor, aceita a nova doutrina. A dança é, para ela, seu batismo; definitivamente, sua conversão. Tanto que, ao fim, Nini chega a proteger Satine e Christian, impedindo que um tiro fatal sele seus destinos impiedosamente.

Nesse sentido, o Argentino (Jacek Koman, fantástico) – que é o estrangeiro, o que olha com olhos externos – é dos mais complexos coadjuvantes. É o Sacerdote da nova religião. Em primeiro lugar, porque é ele quem verbaliza o caminho tortuoso que segue o protagonista: Primeiro, há o desejo; depois, a paixão; então, a suspeita; o ciúme; a raiva; a traição (mais uma vez, no Tango de Roxanne). Ali, ele converte Nini e solidifica os novos dogmas, justamente quando o próprio cristo já pensa em abandonar seus princípios. Em segundo, porque ele encarna O PRÓPRIO CHRISTIAN, confundindo-se com ele durante o ritual mais importante da nova doutrina: o Teatro.

Como toda religião tem uma ritualística, e como toda ritualística é o ápice da comunhão entre homem e espírito, o clímax narrativo não poderia ser outro que não este: a Peça – a missa dessa nova religião – REALIZA o Amor através da Devoção, da Perversidade e da Redenção. É isso; se quer entronizar-se em sua nova doutrina, Christian deve superar a traição, que, ao contrário do que ele mesmo imagina, nunca foi concretizada por Satine. Sim: o cristo é aquele que deve superar a traição a si próprio. Ele trai quando desconfia, quando tem dúvida (Pai, por que me abandonaste?). A dúvida é sua crucificação. E o Argentino é o Sacerdote que não permite a dúvida. Já havia dito: No amor pela melhor oferta, não há confiança. Sem confiança, não há amor. O Sacerdote é aquele que confia. Junto com a a Cítara Mágica, aquela que só fala a verdade, ambos resgatam o cristo de sua dúvida e o trazem a sua única certeza: o amor é aquilo que o fortalece (The greatest thing you’ll ever learn is just to love and be loved in return!). Christian deixa de duvidar. Substitui o Sacerdote. E consagra a nova religião – mais uma vez, o Amor – em toda sua plenitude. Não importa o que diga, dizem ao Duque, o show termina do nosso jeito.

Enfim

Respondo ao meu amigo: não é que um texto sobre Moulin Rouge seja necessário. Não é. Nada disso é importante. Assim como não importam as religiões ou o que compreendemos delas.

O que importa, meu amigo, é a fé. Não a “necessidade da fé”. Mas a manifestação absoluta da fé.

Principalmente, amigo: importa o Amor. Incondicional força-motriz do homem, combustível à engenharia dos ossos e do sangue que circula em vermelho vivo. The end.

Dos relacionamentos que tive, prefiro os belicosos. Porque os apáticos demoraram muito a ter seu fim – fosse o fim de um dia, fosse o fim de muitos meses. O destino era o mesmo de todos os relacionamentos apáticos: bate preguiça.

Dos belicosos, guardo sempre as más lembranças. Todas elas. Tempestades homéricas de um copo d’água. Freak outs, conflitos, carros acelerados comigo no passageiro e sem o cinto de segurança. Mulheres que me atiravam facas, como numa atração circense em que eu rodava e elas me miravam de olhos fechados, e copos de vinho na cara, histéricas. Guardo na lembrança minhas sensações de raiva contida, acumulada por horas de um monólogo que tentava transformar em diálogo, mas era sobrepujado pelo poder dos gritos e da fúria das mulheres em transe por seus próprios argumentos, apaixonadas demais por suas próprias ideias e pela discussão, muito mais que pela relação em si. Me lembro de guardar a fúria; pior, me lembro da vontade de acabar-lhes com o discurso com um tapa na cara, de gritar “se controla, porra”, e mostrar-lhes o comando que o momento incita – o passageiro sombrio de anos de superioridade genética –, o poder do macho sobre a fêmea, da força física sobre a intelectual, do meu corpo sobre os delas. Mandar: deixar claras as minhas ordens. E, assim, suscitar o sentimento servil, a obediência. Puxar-lhes os cabelos pela raiz, começando pela nuca, para trás, até recitar-lhes um a um o comando que as rebaixaria a nada, que as deixaria sob meus ardilosos planos, que as faria engolir seus discursos vazios, suas conversas vagas e despropositadas no grande plano bio-religioso da evolução, que atrasava o que era importante: macho e fêmea os criou, diz a gênese; crescei-vos e multiplicai-vos, eu sussurrava em ouvidos contidos pela mão na nuca, pelo hálito quente.

E depois era o melhor sexo: o de reconciliação. Em que tudo passava ao delicioso jogo de som e fúria: literatura shakesperiana.

(Que elas ganhavam, claro, ao me drenar liquidamente as forças, depois de tanto fingir e subjugar-se, porque eram a força intelectual.)

Começo no clássico. É porque saio cantando essa canção por aí a torto e a direito mermo. Ligo alto, quando toca. E não olho pra quem me presta atenção na rua.

Nunca fui muito fã do Elvis. Camaradas que me perdoem, mas rei por rei sou mais o Roberto. Mas aí teve aquela vez (sempre tem aquela vez, em que do nada a gente se toca de tudo, e que a música faz sentido e tal e coisa).

Bem, a minha vez foi num tempo que remonta há uns dez anos. Eu me lembro de mim e mais quatro à mesa. Era uma mesa de pôquer, já de pano verde, até onde me recordo. E não havia pretensão maior na noite que perder uns trocados, que não apostávamos alto.

Em silêncio o jogo transcorria. Um silêncio respeitoso. A música que viera antes, num cd repleto de emepetrês e em shuffle, o impunha. Recebia as cartas que o da frente me entregava. Contava-as reticente um-um-um-um-um dois-dois-dois-dois-dois (cerveja)três-três-três etc. Mas sou de falar e assim resolvi quebrar os sounds of silence. Falei de uma tristeza. “Estou com uma tristeza; é que ela não me sai da minha cabeça e acho que vou ficar assim pra sempre.”

Daí, num daqueles momentos mágicos (adolescentes, me dirão, me detratarão, mas é isso, mágico, adolescente, dão no mesmo), a música do Elvis entrou na hora. Eu disse pra sempre e Elvis respondeu wise men say com sua voz grave. Cinco segundos de absolutos pesares e olhares penosos. O resto da noite em gargalhadas. Maldita engraçadíssima coincidência. “Coisa de cinema, cara. Muitengraçado.”

É. Eu olho pra trás. Coisa de cinema. Hashtagtruestorybro – e a vida não caminha tão diferente.

a ideia não é inovadora, mas é nova por aqui; então acho que merece uma explicação.

Todo mundo sabe que eu sou um copista. Daí, resolvi Chopinear, tal Chico e Alf, e me aproveitar de algumas canções pra brincar com elas. Seja pelo ritmo, pela sonoridade, pela letra, o jogo consiste em explorar gráfica ou semanticamente as estruturas que vocês me ofertarem. A partir delas, inventar. Nunca atado a formulinhas, claro; a pauta vem pelo que der na veneta.

Bem bem, mas as regras envolvem um jogo duplo: neste blogue, o Protótipo, haverá uma música por dia (okay, quase isso), sobre a qual darei uma pequena nota – pessoal, egoísta, intransferível –, provavelmente reclamando da eternidade e para (duplamente) a eternidade. Deal with it.

Naquele outro, o Palimpsesto Ébrio, a partir deste fim de semana, rola uma brincadeira diferente. Vocês, mecenas implacáveis, sugerem a composição; eu, mediante recibo em duas vias de firma reconhecida em cartório, pinto o quadro. Vale diumtudo: do pop ao clássico, da velharia à novidade que veio dar à praia, tipo um baião. A pretensão (pff) é criar a partir do que me propuserem. Só evitem a obviedade, pelamor!

Aí vocês ouvem tudo co’a musiquinha que vem junto. Essa é a graça; se não funcionar, culpa minha, não me paguem, metam o pau. Se funcionar… bem, vocês pagaram por isso. Deem-se por satisfeitos pela graça adquirida e regozijem-se pelo texto que criaram.

Então é isso. Partiu?

Estava evitando falar sobre o Freixo. Tinha medo de tornar tudo muito pessoal.

Quando o conheci, Freixo era só (meu) professor de história. Já militante ferrenho dos direitos humanos. Foi com ele que entendi qual a diferença entre o poder de ação do estado e o da sociedade civil. Foi com ele que aprendi que preso não “consome 850 reais pra ter uma boa vida”, que “o negócio no Brasil é ser pobre” é discurso merda de classe médi(ocre)a e que ação social tem a ver com responsabilidade, não com demagogia ou discursos vazios. A ação é na porrada, amigo.

Foi com ele que aprendi que a vida é à vera. E que você só foge quando tá com medo. (E ele está com medo: filhos, mulher; ameaças de morte; quem não teria feito por menos?)

Comecei a panfletar pro Marcelo com uns 15, 16 anos (falha a memória). Pra vereador de Niterói. Não porque ele era meu professor. Mas porque sabia que era a coisa certa. Eu e minha turma organizamos as festas de campanha, arrecadamos grana, saímos às ruas pra conseguir apoio. Eram momentos de extrema alegria.

Não porque ele era nosso professor. Mas porque sabíamos que era a coisa certa.

O resto da história acontece sem mim. E vocês conhecem a trajetória política desse cara melhor que eu.

Outro dia, eu o reencontrei. Num shopping do Rio. Abatido, mas confiante – era a situação com os bombeiros que o afligia. “Um café?” “Dois!” Tratou-me como sempre (como “Rapha”, que era como me chamava). Perguntou-me sobre minha mãe (que conhece), sobre meus irmãos. Era o mesmo cara. Perguntei de novidades. Ouvi que ele se candidataria a prefeito do Rio nas próximas. E ouvi que a coisa andava mal. A milícia se movimentava muito rapidamente. O Estado não o ouvia.

Claro! Não há interesse. Ninguém espera que o azarão ganhe o páreo.

Falar de Marcelo Freixo é discutir minha formação política, moral; ética, acima de tudo. Falar de Freixo é saber que há ideais pelos quais vale a pena a luta; falar de Freixo é saber que o passo atrás é fundamental pra corrida à frente.

Falar de Freixo é ter a certeza de que ele vai voltar bem. E de que essa porra toda vai mudar. Logo e sem demagogia. Força, Mestre e Amigo!

e, pracordar, pedi um pão na chapa e um Night Prowler do AC/DC pragora já. “Na veia, senhor?” De preferência! “Hm, hm, estamos sem Eicidici, sir!, não serve Bowie?” O quê do Bowie? “Space Oddity, coisa fina…” Conheço papo de vendedor, (Bowie é bom na hora, mas dá onda ruim) não tem nada dos Young? “Estamos em falta de australianos, só tem Counting Crows.” Ah, nem diga o quê, já indigesto, me vê um Stones mesmo, tem? “Sympathy for the devil é o que mais sai, sir!” Não, quero algo mais leve, “You can’t always get–?” dá um Ruby Tuesday, que é pra curar ressaca mesmo. “Claro.”

Mas ó, mudei de ideia. Sem o pão na chapa.

em que toca “You can’t always get what you want”, Jagger fala em conexões astrais e eu me percebo sem rumo: escola, trabalho, esforços.

E a sensação de que em alguma curva eu tornei ao lado que não era.

(But if you try sometimes well you just might find you get what you need–)

quando abria a torneira e esperava a água esquentar, controlando a temperatura: foi naquele momento em que pensei Nela. A Inexorável. E me toquei que the end, game over, la commedia è finita – é o que ela é; foi a primeira vez que a encarei com olhos frios (meus, no banho quente) e me veio angústia. Não medo, que a inevitabilidade não permite; não raiva, que há existencialismo para a sede; não terror, que isto não é filme e já li muito Neil Gaiman pra sabê-la engraçada e divertida.

Mas faltou sentido para a vida. Que não há em deus ou em Darwin, na presença ou na ausência, na claridade ou na penumbra.

Talvez – talvez – na epifania. Mas a água gelou antes que eu fechasse os olhos. Eu nu.

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