Dos relacionamentos que tive, prefiro os belicosos. Porque os apáticos demoraram muito a ter seu fim – fosse o fim de um dia, fosse o fim de muitos meses. O destino era o mesmo de todos os relacionamentos apáticos: bate preguiça.

Dos belicosos, guardo sempre as más lembranças. Todas elas. Tempestades homéricas de um copo d’água. Freak outs, conflitos, carros acelerados comigo no passageiro e sem o cinto de segurança. Mulheres que me atiravam facas, como numa atração circense em que eu rodava e elas me miravam de olhos fechados, e copos de vinho na cara, histéricas. Guardo na lembrança minhas sensações de raiva contida, acumulada por horas de um monólogo que tentava transformar em diálogo, mas era sobrepujado pelo poder dos gritos e da fúria das mulheres em transe por seus próprios argumentos, apaixonadas demais por suas próprias ideias e pela discussão, muito mais que pela relação em si. Me lembro de guardar a fúria; pior, me lembro da vontade de acabar-lhes com o discurso com um tapa na cara, de gritar “se controla, porra”, e mostrar-lhes o comando que o momento incita – o passageiro sombrio de anos de superioridade genética –, o poder do macho sobre a fêmea, da força física sobre a intelectual, do meu corpo sobre os delas. Mandar: deixar claras as minhas ordens. E, assim, suscitar o sentimento servil, a obediência. Puxar-lhes os cabelos pela raiz, começando pela nuca, para trás, até recitar-lhes um a um o comando que as rebaixaria a nada, que as deixaria sob meus ardilosos planos, que as faria engolir seus discursos vazios, suas conversas vagas e despropositadas no grande plano bio-religioso da evolução, que atrasava o que era importante: macho e fêmea os criou, diz a gênese; crescei-vos e multiplicai-vos, eu sussurrava em ouvidos contidos pela mão na nuca, pelo hálito quente.

E depois era o melhor sexo: o de reconciliação. Em que tudo passava ao delicioso jogo de som e fúria: literatura shakesperiana.

(Que elas ganhavam, claro, ao me drenar liquidamente as forças, depois de tanto fingir e subjugar-se, porque eram a força intelectual.)