Maldito tempo.
Que dele não se extrai nada, mas um amontoado de memórias.
Malditas memórias.
É assim: tá lá você feliz, de boa, vidinha pacata mesmo. Duas doses depois, e você parece a velhota daquela musiquinha da velha a fiar.
“Estava a velha no seu lugar
Veio a mosca incomodar
A mosca na velha e a velha a fiar…”
Muitas moscas. “Cada um tem sua bagagem. Vamos, carregue a sua!” Pesado… Quem liga? O jeito é ajeitar o pacote na chuva e seguir.
É lembrança. Não é vontade de voltar atrás, que a gente não é disso. Vontade de voltar atrás têm os redundantes, os que não sabem que tudo foi o que você é. Você É essa porrada de coisas tuas, esse aglomerado de vida-à-vera, companheiro. Voltar atrás é intolerável. Um desperdício de é. De ser. De foi.
Que jogo de palavras o quê. É na real. A felicidade existe no agora. Mas existiu no antes. E era felicidade diferente. E de que se sente falta. Porque está lá atrás. Mas só por isso. Hoje mesmo ela seria diferente, mesmo que fosse igual. Porque você é outro. “Eu sou outro.” Sou diferente do que já fui. Eu não sou meu passado. Sou o resultado dele. (E sofro com uma confusão de pessoas. Eu, você; de quem falamos?) Não sou poeta para poetizar os diabos dessa vida.
Fosse poeta, provavelmente o diria em soneto. Chamaria de Soneto ateu. E seria mais ou menos assim.
–que o tempo – tão ingrato, tão perverso –,
Descolhe com as mãos poema feito,
Extingue em toda rima o defeito,
Arranca o chão septicole do verso.
Desfaz em cinza e riso o canto imerso.
Do Mistério, esteta; tabula rasa.
Morre na dura-mater da toada,
Em canto que revela todo (in)verso.
Eis! Jaz! O tempo o acolhe e o reveste
Em nuas moradas cegas aos homens.
Seja lançado às fúrias do céu!
E grite a pulmões: “Alea jacta est!”
Realize em memória, em sombra, em templo
A eternidade do tempo, incréu.
Mas não sou poeta para poetizar os diabos dessa vida. Minha noite é mais branda. As lembranças deixam dores amargas e puras. Tá bom.

1 comentário
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30/01/2012 às 10:41 pm
X.
Pra mim, essa música gira totalmente em torno do verso “The more you change the less you feel”. E é isso que torna suportável a dor amarga e pura das lembranças, não? A inevitável mudança.
Não vou começar a filosofar aqui nos comentários. Não sirvo pra isso. Vim elogiar a escolha da música (que apesar de ser uma PÉSSIMA trilha sonora pra madrugadas em branco, é maravilhosa) e o soneto. Muito bonito.
É isso.