eu tou precisando. Mas é de mim mesmo. Por enquanto, tá difícil. Coisa maluca essa de ir, buscar. Nem dá vontade de chegar. Lá. Seja isso onde for, o que for. Lá?! Lá é aqui. Aqui… O impronunciável já. Vazio.
O texto a seguir CONTÉM SPOILERS sobre o filme.
You’ve got that thing, you’ve got that thing
That thing that makes birds forget to sing
Yes, you’ve got that thing, that certain thing
You’ve got that charm, that subtle charm
That makes young farmers desert the farm
‘Cause you’ve got that thing, that certain thing
(Cole Porter)
Meia-noite em Paris
Algumas memórias sensoriais a partir de Allen
ou como Sidney Bechet fez todo o cinema assoviar uma clarineta
Já joguei fora alguns parágrafos desse texto sobre o novo filme do Allen. Notem, a este propósito, que este é daqueles textos que não querem sair. Talvez seja justamente o problema do escritor (o escritor é aquele que escreve, não aquele que intelectualiza): o de dificultar o que é simples. E Meia-noite em Paris é de uma simplicidade venal para qualquer um que se aventure a falar sobre ele. Ou pior: escrever.
Tanto, que começa com uma fotografia desleixada de Paris. Nada de romances, cidade encantada. É uma Paris crua que se revela em bancas de jornais, em ruas sem movimento, em uma tarde de chuva fina, em brasseries, pâtisseries e pequenos bistrôs, pelos quais provavelmente passaríamos sem muita atenção, procurando as luzes da torre alta da cidade-luz. Turistas – é o que somos, pejorativamente.
Mas aí entra Sidney Bechet.
Okay, seu Woody Allen: nem apareceram os créditos iniciais, e já somos parisienses natos.
Aclimatados, vamos ao filme. Que é o que promete e, principalmente, o que não promete. A Paris de Gil Pender é, essa sim, uma festa interminável.
Gil Pender (Owen Wilson, surpreendente), aliás, é, como de hábito, um heterônimo do diretor, que dessa vez – talvez por estar em Paris, talvez por perder sua dose habitual de hipocondria, talvez por se permitir o desatino – dosa melhor o Valium. Já foi dito que Gil é a versão masculina de Cecilia, personagem de Mia Farrow em A Rosa Púrpura do Cairo. Acho injusto. Embora os tons ficcionais estejam cada vez mais presentes nas obras de Allen – a quarta parede destruída em Tudo pode dar certo, a narrativa fabulesca (percebida no ritmo e na comparação literária com Crime e Castigo) de Match Point, a referência surda ao próprio trabalho em Dirigindo no escuro, o estranho inferno judaico-cristão em Descontruindo Harry –, é em Meia-noite que o autor carrega nas tintas (tal um Monet performático, um Buñuel romântico, se me consentem a audácia) e se permite enfeitar os céus da Paris de Picasso com tantas meias-noites estreladas quanto possíveis. Mas as comparações com a célebre homenagem ao cinema de A Rosa Púrpura se interrompem por aí.
As referências culturais dessa Paris encantada de Pender/Allen, inúmeras como tanto gosta o diretor, não são discutidas em mesas de bar, reproduzindo o senso (in)comum de suas obras – como em Manhattan, Cenas de um shopping, Vicky Cristina Barcelona… a arte é sempre desculpa para digressões do senhor Allen e de seus colegas. Dessa vez, no entanto, ele é quase didático. Sem o ser em absoluto. São alusões bastante evidentes, quase ridículas por sua obviedade visual e estereótipo – a exemplo de um Cole Porter cantando afetadamente Let’s do it em seus saraus; um casal Zelda e Scott Fitzgerald histéricos em sua relação; um Hemingway beberrão e briguento; um Dalí patética e divertidissimamente encantado com rinocerontes; e assim por diante. Com isso, Allen busca um duplo efeito narrativo:
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o primeiro, no plano mimético: quando marca patologicamente os comportamentos que tais artistas crivaram no imaginário coletivo, Allen gera a identificação imediata desses indivíduos pelo público. Mesmo os leigos em arte contemporânea conseguem reconhecer um ou outro pelos trejeitos, pela aparência (e juro que ouvi alguns “olha, o Dalí que o professor falou” perdidos pelo cinema). De qualquer forma, é divertido observar como esse processo leva ao riso e à graça muitas vezes, seja por diálogos espirituosos (“Eu estava dançando com Djuna Barnes? Não à toa ela queria conduzir”, em referência à escritora nova-iorquina lésbica), seja apenas pela referência em si (“Thomas Stern Elliot? T. S. Elliot? Conheço Prufrock de cor!”, e o poeta ou sua obra sequer aparecem na cena).
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o segundo, no plano da verossimilhança: fica a dúvida (pertinente) se a narrativa não é, afinal, uma completa divagação do próprio Pender. Atribua-se a isso a loucura, a fuga do relacionamento fracassado com a esposa, a necessidade de construir sua própria obra (um homem que trabalha numa “loja de memórias” é o que Pender expõe em seu livro, afinal), ou o que quer que seja. A verdade é que Pender precisa deslocar-se de seu eixo, se quer que o romance que está escrevendo flua (o personagem reclama do pouco trabalho dedicado a sua obra e até mesmo do entusiasmo esvaziado e pessimista que a compõe, antes da primeira viagem). Chega a ser ridículo, pois, quando Gertrude Stein quase repete essa mesma frase, ao criticar o livro do jovem autor; percebe-se, dessa forma, que o diálogo se torna cada vez mais interno/interiorizado. A viagem àquela Paris é, portanto, nada mais que a necessidade do cumprimento do trabalho; é o autor que mergulha a conhecer(-se) na própria obra. Absoluta metalinguagem. Mais absoluta catarse autoral.
Nesse sentido, é importante frisar que essa viagem pertence ao Gil, e somente a ele. É natural perceber, então, que o personagem precisava de alguém que representasse suas expectativas e seus anseios naquele período (que ele mesmo criara, repita-se), já que ele não pertencia àquele não-lugar. É dessa forma que Adriana (a sublime linda fantástica quero-uma-pra-mim Marion Cottilard) entra em cena e cospe a metalinguagem na cara do espectador. Adriana é a sombra junguiana de Gil.

(Vamos a um conceito bem rápido: para Jung, ex-discípulo de Freud, a sombra é “a coisa que uma pessoa não tem desejo de ser”; de uma forma ou outra, o lado primitivo, sensorial, reprimido, inconsciente; em plano rápido, a sombra é o desejo E a vontade E a volição. Uma bomba prestes a — BOOM.)
Portanto, ao questionamento: quem é Gil, que não a soma de seus desejos? Gil é Adriana. Ou deseja ser. Adriana é sedutora, envolvente, bem resolvida em suas relações instáveis. Acima de tudo, Adriana é apaixonada por Gil (a sombra, como arquétipo, é marcada poderosamente pelo afeto, obsessivo, compulsivo); e sofre, como ele, de uma grave crise de identidade: sente que sua vida é num não-lugar, numa Paris mais passada ainda. Suas ações não se lhe pertencem.
(Sobre essa circunstância, é fundamental marcar o trabalho de fotografia de Darius Khondji, vencedor do Oscar por Se7en, que vai desfocando, como numa má lembrança, as Parises que se projetam na memória cada vez mais afetiva e distante, até a da Belle Époque, que é quase um borrão dourado, em referência às “Idades de Ouro” que são sobrepostas.)
Adriana é aquela que liberta do maniqueísmo a Paris dos escritores estereotipados. É a única personagem ficcional daquela Paris; e é também a única com quem nos importamos em toda a projeção.
Adriana é, enfim, aquela que precisa ser abandonada para que o Gil assuma as rédeas de sua história. Afinal, é preciso harmonizar desejo e moral para concretizar a vida no plano presente.
É assim que somos submetidos a uma Paris que poucos conhecem. Não a da Torre Eiffel, que só aparece brilhante ao final, como a aceitação inolvidável de nossa condição mortal (Pender se supõe imortal a Adriana, em dado momento; Allen desmente o personagem, num jogo sublime – a se considerar que Gil é sombra de Allen, ludicamente). E Gabrielle (Léa Seydoux, apaixonante), a vendedora de artes parisiense, é seu (nosso/do Woody Allen) prêmio.
“Sua história é uma boa história, porque é honesta.”, Hemingway diz a Pender em certo momento. Allen aceita o elogio, ganha a maior bilheteria de sua carreira, e ainda se dá o luxo de escolher caminhar pela chuva (a velha metáfora: água é limpeza, pureza espiritual, redenção) com Léa Seydoux.
Ao som de Sidney Bechet. Que todo mundo sai assoviando do cinema. Em catarse.
eu sou de me atrapalhar com meus gestos, com minhas mãos atabalhoadas, minhas ideias confusas e meus jeitos sem-graça.
(Mas minha boca conhece o caminho para a sua, mesmo que eu perca coragem para o encontro.)
às vezes
- faz frio
- até em Ipanema
(e é quando as praias ficam vazias e você pra que tudo isso?)
O texto a seguir não contém spoilers sobre o filme, mas pode ser melhor compreendido por aqueles que já o tenham visto.
“What will grow quickly, that you can’t make straight
It’s the price you gotta pay
Do yourself a favour and pack you bags
Buy a ticket and get on the train
Cause this is fucked up, fucked up
(Thom Yorke, “Black Swan”)
O Patinho Feio de Darren Aronofsky
Cisne Negro é arrebatador, de um ou outro jeito

Há um quadro do artista espanhol Velázquez que retrata o próprio pintor dando as pinceladas finais em uma obra – que é observada por todos no ambiente, mas que está invertida à perspectiva do espectador. Chama-se “Las meninas”, palavra que, do espanhol, a despeito do cognato, faz referência a “dama de companhia”. A obra-prima barroca, hoje no museu do Prado, em Madri, ficou mundialmente conhecida pela difusão em grande amplitude do jogo com as luzes – a técnica do chiaroscuro –, pela metalinguagem, trabalhada de maneira originalíssima, e, principalmente, pelas soluções espaciais sugeridas por Velázquez. O quadro que é pintado no quadro, no entanto, não é, de todo, obscuro, mas só pode ser percebido por um detalhe ao fundo, no ponto de fuga invertido, em que é refletido por um espelho. Ali, em reflexo, observa-se o Rei Filipe IV e a Rainha Mariana da Áustria.

A digressão não é vã. A sensação de se assistir a Cisne Negro, de Darren Aronofsky, parte da mesma angústia que é gerada pelo quadro de Velázquez. Sabe o protagonista? Pois é: o protagonista é aquele que você nunca vê. Só pelo espelho.
v
Aronofsky é obcecado por suas personagens obcecadas. Seja pelo gênio matemático de “Pi”, seja pela mulher que tem que entrar no vestido para o programa de TV em “Réquiem para um sonho”, ou mesmo pelo médico cuja vida se resume a encontrar a cura para aquilo que não há, em “Fonte da Vida”, o diretor usa as cores da (loucura? alucinação?) para tirar o mundo da realidade monocromática a que ele é submetido. Preto e branco são, afinal, todas as cores. Cisnes Negro e Branco são todas as mulheres interpretadas por Natalie Portman. Ela é colorida.
No filme, acompanhamos a vida de Nina Sayers, menina criada-para-o-balé por uma mãe que, ex-bailarina, frustrada, empenha sua vida-que-não-foi à filha. O espelho freudiano: Nina é o reflexo dos desejos de outra mulher. Aí, ser “boa”, na companhia de balé, não vale: é necessário ser mais. Nina quer ir além de si própria. É exigente ao extremo. Deseja a perfeição.
(A se considerar que o conceito de “perfeição” é muito abstrato e que não vale gastar muitas linhas aqui, pensemos: o que é a perfeição se não o que o outro vê de nós mesmos, mas sob nossa própria perspectiva? O pintor olha o quadro: de dentro, observa-o com dúvida e com o pincel na mão, pronto para outra pincelada; de fora, só pode analisá-lo pelo espelho que traçou estrategicamente atrás de si mesmo – o outro si-mesmo, o pintado: um se satisfaz com a insatisfação do outro. Perfeito.)
Por isso, quase nunca acompanhamos Nina de frente. A câmera de Aronofsky se ocupa em satisfazer o espectador pelos espelhos em que a protagonista se observa: no camarim, em casa, no estúdio. Estamos sempre de (por) fora, sempre a observá-la de sua própria ótica; voyeurs, temos de nos satisfazer com o que ela quer nos mostrar. E isso é quase nada.
Nascem daí as piores críticas sobre o filme. Não é sobre o balé que o devemos analisar; muito menos sobre a obra de Tchaikovsky – apenas um pretexto pra tornar o filme Preto e Branco, como em “Pi”. É na paleta de cores dos reflexos do que Nina vê que devemos buscar as respostas pro que se passa na tela. E isso é coisa pra caramba.
Ao longo do trajeto, Nina, que é o próprio Cisne Branco, mas que não tem a sensualidade para ser o Cisne Negro, será testada ao máximo pelo meio: traição, ambição, inveja. Nada diferente do habitual. O que muda, por Aronofsky, é que, num tom pop, o diretor bebe da fonte de David Cronemberg (“A Mosca”) para (des)construir sua protagonista. Aí são unhas caindo, náuseas, pele rasgada. Nina é um experimento de seus próprios desejos: para se tornar o Cisne Negro, a alardeada perfeição não basta. Ela precisa ser outra Nina.
Mas Nina é fraca.
É essa fragilidade desconcertante que torna o trabalho de Natalie Portman tão precioso. Por seu roteiro, o filme trabalha numa linha tênue entre o cult e o o kitsch rasgado, como na cena-clímax, em que a bailarina interpreta o Cisne Negro. Portman, entretanto, não permite que Nina deixe de ser só um reflexo de sua fragilidade e de seus dilemas. Mais: ela nunca interpreta a personagem: a atriz é uma espécie de Mrs. Celophane de Nina, que se deixa transparecer em visceral e agressiva ingenuidade e crueldade. Absurdo o trabalho da atriz.
De mais, todo o resto é a contento e, por isso, de certa forma, destoa da obra geral do cinegrafista: o roteiro, linear, chega a ser didático (no início, quando Vincent Cassel explica o roteiro de Lago dos Cisnes aos desavisados) e não é tão original como o de “Fonte da Vida”, por exemplo; mas serve aos propósitos da constituição orgânica de Nina; os coadjuvantes, por sua vez, estão em sintonia, com leve destaque a Barbara Hershey, por sua determinada Erica Sayers.
Darren Aronofsky nunca se preocupou com a verossimilhança externa do filme. Se aquilo parece ou não uma companhia de balé, realidade, pouco importa. O diretor é um pastiche dos velhos parques de diversões, em que uma voz (para mim, sempre assustadora) anunciava a impressionante antropomorfização de uma bela mulher num horrível monstro: era Konga, a Mulher-Gorila, que se transformava na frente de todos. O truque de espelhos de Aronofsky é o mesmo. A obsessão monstruosa de Natalie Portman, entretanto, é muito maior – e muito mais humana.
um homem que sabia descrever sentimentos, ideias, sensações como nenhum outro. Era mestre na arte de desdobrar a literatura a seu favor.
Até que um dia resolveu viver, se magoou e morreu por fora.
Por dentro, escreveu textos mais bonitos ainda. Fez sucesso. Ganhou fama internacional.
Mas viveu infeliz para sempre.
Um sonho catártico, daqueles que dói só de pensar nele de novo.
Você estava morta. Tinha morrido. Vida acabada assim num puff. (Eu sabia porque fora ao seu enterro. Foi de uma tristeza sem tamanho. Ao mesmo tempo, lá não havia ninguém além de mim, como se o enterro tivesse sido antes, e eu não pudesse encará-lo, como se fosse minha a sua morte.)
Recebo uma mensagem (dessas que só em sonho existem) de que estranhamente, por algum desígnio divino, você teria, no entanto, mais um dia de vida. Era seu aquele dia. E meu coração se aperta por inteiro.
Seus amigos começam a se organizar para recebê-la. É numa casa linda que preparam um pouco de tudo. Não é uma festa: é um dia para você. Há ali tudo o que gostariam de fazer com você mais uma vez. Tem champanhe bom; tem um filme de que você tanto gosta; tem comida gostosa; tem música animada e divertida. Não dá tempo pra ficar triste.
Não é uma festa: é um dia para você.
É claro que eu estarei lá. Antes, no entanto, eu preciso trabalhar. Enquanto dou a aula, você aparece de soslaio lá no fundo, como se assistir à aula fosse uma das coisas importantes a fazer no dia. Eu fico feliz. É a primeira vez que eu te vejo desde sua morte.
Você sai de fino e eu sei que vou encontrá-la mais tarde.
Vou ao seu encontro naquela casa.
Você está lá, e só nos vemos de relance. É o seu dia. Não posso querer tê-la para mim. Não seria justo ou certo. Você vem, me abraça como se fosse com todo o amor que existe; eu pergunto como é depois da morte: você me cala a boca com o indicador sobre meus lábios. Me dá um beijo curto e bom. E diz que não há tempo pra perder com bobagens.
Aquiesço. Pra mim, aquilo é tudo. Fico feliz de ter você ali.
Eu tenho mais uma coisa a fazer: você fica ali com seus amigos, e eu vou pro lado de fora da casa; tenho de protegê-la. Carrego comigo uma arma grande, com mira telescópica; me transformo num sniper, num atirador de elite, estou ali preparado pra quem venha sem convite estragar o dia.
É claro que ninguém aparece; mas dou um tiro num muro só pra testar.
O tiro é certeiro.
É nesse momento que você aparece. Tomava uma bebida com muito gelo. Me oferece um pouco; eu recuso. Estou atento ao trabalho, à necessidade e à importância do trabalho.
Você me vê e eu digo que você mal falou comigo. Estou sempre reclamando. Você me diz que é assim mesmo, que tem pouco tempo, e eu me culpo de novo. É claro. Desculpa. Me dá um abraço.
Você fala que já é hora, que tudo precisa acabar de novo. Eu digo que não pode, que é injusto, que eu não disse tudo o que precisava. Você diz que sabe tudo o que precisa. Me dá um beijo mais longo. Um abraço mais forte. Ali, por entre os meus braços, tentei prometer que nem Deus tiraria você de mim mais uma vez. É uma promessa. Nem Deus… E ali, por entre os meus braços, você ri um último sorriso doce, revira os olhos, escorrega, como se dissesse que nem tudo é o que eu quero, há vontades maiores. Eu quero mais um pouco do beijo terno, mais um pouco do afago quente, tento, te chamo, mas você já se foi. Era tarde e você não podia mais ficar ali comigo.
Seus amigos aparecem. Eu sou o único que chora. Todos ali estavam felizes por ter tido você de novo mais um pouco.
Então por que só eu sentia como se tivesse te perdido mais uma vez?
Amaldiçoo Deus. Acordo chorando.
Fim da história.
Tinha cá pra mim uns bordões engraçados pra falar de coisas melosas, mas perdi em qualquer canto do caminho.
Isso que nego fica inventando de que amor é a esmo, ou de que não é nada, ou de que é-não-sendo, tsc. Quanta bobagem. Fico com ninguém. Construo. Sabe engenhearia? Pois é: entendo nada. Sou zero à direita depois da vírgula. Mas gosto de brincar.
Gente que ama pra caramba e desama também e fica com raiva e nunca indiferente. Porque amor não é a oposição da raiva. Amor é raiva também. É desgosto. Desgosto é amor mal correspondido. Não tem essa de anularem-se mutuamente como sim e não, não senhor. Juntam-se.
O que se opõe a amor é afazia. É nada. É pff. (Ou aff, para os modernosos, um muxoxo sem graçola.)
O que se opõe a amor é indiferença. Amor é ativo, vigoroso. Amor é força. Vontade-querer. Beauty Freedom Truth. E pode-se fazer uma lista imensa à la “amar é” mode: amar é andar na praia, amar é dormir juntinho, amar é…
Indiferença. Essa sim é que é o não. Passiva. “Não-ligo”.
Amar é fácil. Até pra quem “não sabe”. Não sabe? Sei. Sabe, sim. “Eu te amo” é mole. Facinho. Difícil mesmo é o que vem depois:
(Complete a sentença. Vale a experiência pessoal.)
Ele foi severo:
– Sozinho em casa num sábado à noite, moleque?!
– É, Senhor. Perdoai. É que nem toda vida se realiza num sábado à noite.
- Coragem, homem. Foi nas pequenas coisas que eu criei a vida.
– Ah, Senhor, pra cima de muá? Sai dessa. Papinho clichê, hein?
– Tá, não te subestimo. Mas, meu querido, bora pra night. Aproveita.
– Senhor. Precisa ser na night?
– Ok, vá beber, vá a um barzinho, chame algum amigo, seize the day (ainda bem que eu falo inglês; Deus tinha desses maneirismos).
– Ah, tá pra mim não, Senhor. Tô a fim de curtir uma bad mesmo.
– Curtir a bad? Sei. Fica aí, então. Vou mandar Bastião passar Zorra Total hoje pra ti.
– Bastião?
– É, pô. O Capeta, o Cramulhão, você sabe. Eu chamo ele de Bastião, ele me chama de Zé. É interna.
– Ah. Bem, eu vou desligar a tv. Ler um livro. Tem o do Peter Gay que tou há um tempão pra ler. (Deus suspirou quando viu que escrevi “há um tempão” e não “a um tempão”. Ele tava com a cam aberta, deu pra notar que ele suspirou. Deus gosta de Português bem dito.)
– Ah, o livro sobre o Modernismo, né? É bom. Mas ele errou. O modernismo não surge com o Baudelaire. Surge comigo. Vai mandar aqueles camaradas escreverem a bíblia daquele jeito, vai.
– Ô Senhor, leva a mal, não, mas aí é sacanagem. Tem que se meter nos assuntos dos homens assim, não.
– É, eu sei, não fala. É que às vezes dá vontade de dizer que tá tudo errado.
- Que foi, Senhor? Problemas no Paraíso? Algo de podre no reino da Dinamarca?
– Não, não, aqui tá tudo na mesma. Shakespeare mandou abraço.
– Tá, manda outro.
(…)
*Deus está chamando sua atenção*
– E aí, vai sair ainda não?
– Porra, Senhor. Tou de ficar em casa hoje. Além do mais, ninguém me ligou.
(Our whole universe was in a hot dense state…) “Alô? Fala, Thiaguinho. Não, não vai dar. Não, tou em casa. Não, tranquilo mesmo. É, longe. Isso, isso, deixa pra próxima. Abraaaço.”
– Golpe baixo, Senhor, não vale. Só porque o Senhor é mandatário do Universo não pode–
– Posso o que eu quiser. Para de desculpas, moleque.
– Vai dar não, Senhor. Sério. Tou de boa. Vou ficar com a lua–
– Tá nublado!
– –com a esperança que pousou na minha cama–
– Eu que mandei!
– –com a música aleatória que toca no iTouch.
(Take me out tonight, where there’s music and there’s people who are young and alive…)
– O Senhor quer parar com isso? Não vou e pronto.
– Affe!
(…)
– Vou sair do msn. Tenho que organizar umas coisas aqui em cima.
– Tudo bem, também vou sair daqui a pouco.
– Mas, ow! Tem cuidado. Vida curta. Eu sei que esse troço de amor é uma merda – se alguém sabe disso sou eu. Eu sei que você não acredita em nada, que é niilista, que tá em crise, que planeja viagens, que troca de planos, que não se adapta, que não faz orações, que não acredita nos poderes do Universo, que já desistiu da humanidade, que se sente impotente diante de todos os problemas, que tem trabalho por fazer, que não se sente capaz de ter filho, que se acha imaturo, que sofre de tristeza – e que tudo isso tá ligado ao fato de se sentir triste e sozinho, de se sentir insuficiente, de se sentir incompleto. Mas tem cuidado. Que você não está nas suas coisas, nos seus livros, nos seus cds, nas suas camisas. Você não está em nada disso, meu filho. Nas garotas que você pega, nos programas que você faz. Nada disso. Mas você nunca vai poder ser enquanto não souber onde procurar. Do or do not, there’s no try. Não escreveu isso no Twitter outro dia? Marina & the Diamonds, certo?
(…)
– Senhor?
*Deus está offline*
(É que eu só quero ficar triste…)
Eu sempre tive medo dos Smiths. A sério. Nunca pude ouvi-los antes de dormir. Era que parecia um misto de coisas sinistras que perturbavam o sono.
Daí que eu cresci e descobri que era angústia…